sexta-feira, setembro 22, 2006

caminho

Caminho somente por caminhar: sem ritmo, sem rumo, sem crença, sem existência.
Não me recordo se terei caminhado sempre assim, não sei porque caminho assim, nem sequer preconizo que caminharei, ou não, sempre assim. Poucas vezes me interrogo sobre a minha possível autoridade para imaginar, esboçar e, em seguida, desenhar o meu trilho. Desconheço a eventual obediência das pernas aos meus desígnios e considerarei estranho se o percurso, um dia, se curvar em vénia à minha passagem. Simplesmente, deixo-me fluir na Multidão, tendo apenas o cuidado de me conservar no meio do conjunto, pois sei que, se me aproximar de qualquer uma das extremidades, resvalarei n’A Falésia, ávida por me acolher no seu abraço despido e agreste.
Os corpos que integram a Multidão formam um todo coerente, compacto, cadenciado, subordinado. Não experimentam a indecisão, a descrença e a não-existência. Por vezes, julgo conseguir destacar um corpo que, tal eu, não faz sentido naquela aparente lucidez, talvez por não acompanhar o ritmo do grupo. Todavia, à medida que os meus olhos tentam focar com maior nitidez esse volume particular, ele vai perdendo densidade, acabando por se sublimar no espaço. Poderá ser absorvido pela Multidão, tornando-se parte legítima dela? Ou desfalecerá, espezinhado pelos passos seguros que não abrandam diante de uma queda?
Então, volta a falta de rumo, de crença, de existência; e volta com estadias cada vez mais longas e penetrantes. Numa letargia crescente, não me apercebo que me afasto do ponto médio. A Falésia, sobranceira, regozija-se com a iminência do Momento.

O Momento é poderoso, imenso, brutal. Talvez até um pouco grotesco ou sórdido. Não ouso confrontar-te, Falésia, antes combato contra mim própria. E deixo-me resvalar... Envolvo-me no turbilhão da tua terra sedenta; inalo com convicção a poeira, o vermelho e as emoções; sorrio, ao contemplar a pele arranhada, suja e já áspera. Não me importo. A liberdade não se importuna com tão pouco. E canto, para ti e para a Multidão subordinada e indiferente. Reflicto sobre o que me está a acontecer. Concluo que, sem precipícios como tu, nada vale a pena: a pele não fica arranhada, mas não consegue respirar; a alma não se expõe ao sofrimento, mas sofre por não se expor ao amor.
E, uma vez mais, entoo para ti e para a multidão subordinada e indiferente, a minha canção: “N’A Falésia, no seu rosto árido, (re)desenhei a esperança no caminho...”

quinta-feira, setembro 21, 2006

dá-me lume

Chegaste com três vinténs
E o ar de quem não tem
Muito mais a perder
O vinho não era bom
A banda não tinha tom
Mas tu fizeste a noite apetecer
Mandaste a minha solidão embora
Iluminaste o pavilhão da aurora
Com o teu passo inseguro
E o paraíso no teu olhar

Eu fiquei louco por ti
Logo rejuvenesci
Não podia falhar
Dispondo a meu favor
Da eloquência do amor
Ali mesmo à mão de semear
Mostrei-te a origem do bem e o reverso
Provei-te que o que conta no universo
É esse passo inseguro
E o paraíso no teu olhar

Dá-me lume, dá-me lume
Deixa o teu fogo envolver-me
Até a música acabar
Dá-me lume, não deixes o frio entrar
Faz os teus braços fechar-me as asas
Há tanto tempo a acenar

Eu tinha o espírito aberto
Às vezes andei perto
Da essência do amor
Porém no meio dos colchões
No meio dos trambolhões
A situação era cada vez pior
Tu despertaste em mim um ser mais leve
E eu sei que essencialmente isso se deve
A esse passo inseguro
E ao paraíso no teu olhar

Dá-me lume, dá-me lume
Deixa o teu fogo envolver-me
Até a música acabar
Dá-me lume, não deixes o frio entrar
Faz os teus braços fechar-me as asas
Há tanto tempo a acenar

Se eu fosse compositor
Compunha em teu louvor
Um hino triunfal
Se eu fosse crítico de arte
Havia de declarar-te
Obra-prima à escala mundial
Mas eu não passo dum homem vulgar
Que tem a sorte de saborear
Esse teu passo inseguro
E o paraíso no teu olhar
Esse teu passo inseguro
E o paraíso no teu olhar


Letra / Música

Jorge Palma

terça-feira, setembro 19, 2006

esse dia

Num dia plácido, pleno de luz e harmonia, encontrei a chama que perseguia havia tempo. Lembro-me do sol, da água, do calor, do amarelo, do sal, do doce, do vermelho, dos olhos, da intimidade, das mãos, de ti.

Encontrei-te antes, eu sei, descobri-te antes, sabêmo-lo, mas nesse dia franqueei a minha última porta, acolhi-te no meu amplexo carinhoso e guardei-te em mim. Senti-me completo. Contigo.

Nesse dia nasceu o meu cristo. A minha vida divide-se agora em Antes d’Esse Dia e Após Esse Dia. E Antes d’Esse Dia, nada; Após Esse Dia, tu ou tudo ou nada, no sentido de que já nada me falta; no sentido que tu tens para mim; no sentido de que não houve mais dias diferentes d’Esse Dia desde então. Então, guardo-te em mim.

Carinhosamente.