quarta-feira, novembro 29, 2006

(des)encontros

É lugar-comum dizer que a vida é feita de encontros e desencontros.
Concordo com esta dicotomia no sentido relativo, ou seja, o encontro ou desencontro tomando como ponto de referência alguém ou um determinado objecto: se nos desencontramos do alvo que pretendemos encontrar, deparamo-nos com um outro encontro, apesar de não o catalogarmos como tal.
Ontem desencontrámo-nos... Felizmente, o desencontro foi somente a ausência de partilha de um mesmo espaço físico.
Na ânsia de te encontrar logo pela manhã, espreito curiosa os teus blogs. É um gesto que executo com naturalidade, dia após dia; interiorizei esta rotina prazenteira nos meus afazeres, faz-me sentir muito próxima de ti. E, quando não colocas textos novos, leio ou releio o teu passado literário, experimento interpretá-lo, esboço conjecturas sobre o significado dos teus relatos, arrisco dissecar as tuas personagens, julgando poder extrair delas os teus traços, convicções, dúvidas, receios, angústias, alegrias, a tua essência. E, por mares de palavras, ondulo ao teu encontro...

segunda-feira, novembro 27, 2006

criámos passado

Hoje, quando falava contigo, dei-me conta, dei-me realmente conta de que criámos passado. Senti-me assomado por uma sensação reconfortante, de orgulho. De responsabilidade.

Sorri interiormente.

Criámos passado... e isso dá-me tanta confiança no futuro.

sexta-feira, novembro 24, 2006

bom dia

Era bom se pudesse falar contigo agora. Segredar-te que acordei, mas desejei voltar a dormir. Dizer-te que me preparei mecanicamente para mais uma jornada de trabalho; que o carro saiu de casa preguiçoso, arrastando-me para a rotina e lembrando-me o depósito (quase) vazio de gasolina. Sorte a distância a percorrer ser exígua! Queria comentar que o sol não compareceu hoje; que a chuva cai de forma intensa, transformando a rua num caudal de águas lamacentas; que, após estacionar o veículo, caminhei até aqui rejeitando o abrigo do guarda-chuva, atitude que deixou o meu cabelo num estado lastimoso e atirou por terra os quinze minutos desembolsados com o secador. No entanto, as gotas de água refrescaram-me a alma, deram um novo alento à manhã, fazendo esquecer uma noite mal dormida. Ontem, nem o teu beijo, primeiro fogoso, depois aparentemente apaziguador, me serenou o espírito.
Hoje, eu queria simplesmente exclamar bom dia ao teu ouvido, enumerar os sorrisos que cumprimentei no meu percurso matinal. Elogiar a nossa existência. Partilhar as expectativas de sexta-feira. Sentar-me. Ligar o computador. E despedir-me, com um breve até logo.

quinta-feira, novembro 09, 2006

sorriso (II)

Gosto de rir contigo.
Abracar-te e rir infantilmente,
Contagiando semblantes.
Com a nossa gargalhada,
com a nossa alegria.
De estar, de ser.
De sermos.
De existir contigo.
Juntos, um só sorriso.
O nosso sorriso.

sorriso (I)

O dia havia nascido cinzento, pesado, sem graça. Mas ela sentia-se mais leve que nunca. Sorriu, rodou a cabeça para a esquerda, observando dissimuladamente a sua condução descontraída, e riu. Ah! Como desejou aquele momento! Percorreram o extenso alcatrão, desembrulhando palavras decomprometidas, efémeras, sem importância. Trivialidades. E entoaram músicas das suas infâncias.
Mais tarde, recordou o mar sereno, o areal, o seu rosto, a pacatez da vila, a esplanada semi-deserta, as placas desbotadas das casas comerciais, a calmaria das ruas estreitas, o seu rosto, um gatinho perdido, as casas honestas dos velhos pescadores e o seu rosto.
Recordou o rosto dele e, em particular, o seu sorriso...


O sorriso deles.
Arrebatador.
E a sua cumplicidade.
Tão espontânea.
Tão nossa.

quarta-feira, novembro 08, 2006

naquela querida data

Naquela data querida desejei silêncio: um breve, mas proveitoso silêncio.

Quero, ainda que por um instante, hipnotizar o mundo, estancando e silenciando rebuliços, pressas gritantes, exigências descabidas, supremacias injustificadas.
Quero que, para o mundo, só nós existamos; e que, para nós, o mundo seja apenas preenchido por ti, oceano imenso, e por mim, terra firme. Tu e eu, ainda que por um único instante...
Quero que todos se emudeçam perante a nossa construção. Fazendo-se silêncio, desejo contemplar-te, redescobrir-me no teu olhar, contornar o teu rosto terno, percorrer o teu tronco forte, perscrutar a tua alma. Desfrutar-te. Lentamente. Suspendendo o tempo entre os nossos corpos... E, nesse instante, quebraremos a pausa que provocámos no mundo, devolvendo-lhe o som e a energia, seduzindo-o com a nossa luz e autenticidade, mostrando-lhe que o nosso amor quer edificar mais que uma vulgar alvenaria de sentimentos.
Quero, como tu, uma construção sólida, fresca, quente e forte e brilhante e livre. E bela.
Quero ensinar ao mundo os ingredientes do nosso cimento, fazê-lo olhar calmamente a vida através das nossas janelas... Em telhados de silêncio.

terça-feira, novembro 07, 2006

hoje acordei

Hoje acordei não estavas não te vi senti a falta a tua falta a falta do teu sorriso do teu abraço do teu conforto Hoje acordei e não vi o sol não vi a praia não vi a água não não vi não te vi Hoje acordei e apeteceu-me adormecer mas tu não me sorriste tu não me abraçaste tu não me beijaste e apeteceu-me adormecer mas acordei sem mim porque sem ti Senti Acordei e estava só estava com frio estava desconfortável estava mas não estava porque estava aqui sem ti e estava aí contigo e não estava realmente em lado algum e estava mas não era e não era porque não estavas Hoje acordei e faltou-me um pedacinho de mim doeu-me a tua ausência pesou-me a tua lembrança e quis correr para ti e quis mergulhar em ti e quis andar contra a brisa contigo e quis dar-te a mão e quis rir-me contigo falar contigo olhar-nos contigo estar contigo ser contigo

Quero acordar contigo Quero adormecer contigo Quero sempre

Hoje acordei com saudade saudade saudade