divagações sobre Física
Nunca se nota tanto uma presença como no momento em que se transforma em ausência. Julgo que é afirmado, na Física, que dois corpos não poderão ocupar simultaneamente o mesmo espaço. Eu, que não sou muito versado em Física, tiro daqui o corolário que quando um corpo desocupa um espaço, logo outro o vem ocupar.
Isto, contudo, não me é nunca reafirmado pela minha experiência de vida: muitas vezes sofri ausências que não foram colmatadas por novas presenças. A não ser que se considere a solidão um corpo. Ou a dor. E, bem vistas as coisas, frequentemente tornavam-se presenças incontornáveis...
(Dor que, tantas vezes, se metamorfoseia em raiva. Ou em desespero).
Foi por estes momentos de solidão, de dor, de raiva e de desespero que aprendi a valorizar a presença, não deles, mas antes da alegria, da felicidade, do prazer e da serenidade. Hoje, consigo identificar estes estados de espírito precisa e imediatamente. Consigo desfrutá-los. Consigo discernir quais as suas fontes.
Não tenho dúvidas: sei o que me espera quando - e se - eles se me ausentarem; por isso, mimo-os; rego-os delicadamente; acaricio-os; acolho-os no meu colo com desvelo. E vivo estes momentos em toda a plenitude sem os empurrar do seu espaço; sem convocar fantasmas ou aparições (in)desejadas; sem antecipar problemas; sem medo.
O ser humano habitua-se a tudo. Também à solidão; à dor; à raiva; ao desespero. Mas tenho bem presente na minha memória a última vez que o seu espaço foi ocupado por um novo corpo. E nunca se me assinalou tanto uma ausência como no momento em que se transformou em presença...
nós
Ouvi dizer (
disseram-me?) que os nossos nós mostram a beleza que os entrelaça somente quando ficam cruelmente desatados. Nem sempre possuímos o sol, os festejos vivem de inflexíveis datas cravejadas no calendário, duas mãos apertadas empalidecem no gelo, as flores não partilham o seu perfume todos os dias, as montanhas não se erguem para que projectemos, do seu cume, o idílio da vida, porque a sua presença enfatiza ausências e desnuda invejas, como se o desejo de tocar os céus fosse pretensão altiva. Um dia, os rios estagnarão sedentos, a música desafinará os silêncios oportunos, qualquer manjar não terá apetite que o devore, as almas aposentar-se-ão e os sentimentos desfalecerão como círios gastos e descrentes. Ouvi dizer que fotografias de faces fugazes e felizes traduzem necessariamente negativos negros e nefastos. O encantamento não passa de um capricho da nossa imaginação com reduzidíssimo prazo de validade.
Não suporto ouvir dizer (
dizerem-me?)... Adormeço os ouvidos, não quero escutar, solta-se a palavra. Ouvir-me-ão dizer (
direi?)... Não se aniquilam devaneios assim tão abruptamente. Refugio-me em casa, emolduro e arquivo felicidade, preparo um novo e impaciente álbum, confio em faces felizes, raspo os desencantamentos que arderam na pele, mas reacendo esperança. Preparo uma lauta refeição por simples gula. Chamam-me tonta....
Erguem-se montanhas quando acreditamos em flores de indeléveis aromas: em cada elevação, uma corda. Forca ou escada. Os fios torcidos oferecem-nos degraus, insinuam fragilidades, expõem o precipício, estendem a mão. Reforçam-se os laços quando eles ousam esmorecer, firma-se o encantamento.Creio que um dia morrerei cantando, ainda que acompanhada por inaudíveis violinos de cordas fatigadas, num leito de águas tranquilas, lacrando nas mãos a secreta beleza das amarras. Atando nós (
direi seguramente).
entraste em mim
Por vezes lembro que me esqueço de ti, Falésia. E, de imediato, atribuo este meu esquecimento ao facto de vivermos numa espécie de simbiose. Todavia, só ontem tomei consciência desta verdadeira comunhão, quando rodopiava, compenetradamente distraída, sobre oportunidades passadas. Não te vislumbrei em nenhum dos mais pensativos recantos; na verdade, era impossível descobrir-te enquanto não me descobrisse também.
Como podia eu contemplar-te? Se estás dentro de mim e eu vivo em ti? Fundi-te na minha existência, numa liquefacção que apagou o marco do tempo: desenho-te como se estivesses estado sempre comigo, sem conseguir destrinçar com exactidão o lapso em que foste apenas esboço ténue.
Não obstante, admito que já fui precavida, distante, impenetrável; gastei o escudo azado da tua sombra, ensaiando-o como barreira de protecção.
Hoje, implicitamente, não me permito esta contenção, autorizo o nosso encontro: tu franqueaste a minha permanência; eu deixei-me comprometer. Não pondero (nem desejo) inverter a marcha, reunir fragmentos de passado e voltar. Despojo-me de medos, de vertigens, de angústias, de consequências antecipadas, aventurando a minha pele ao frio que possas segredar-me, e comunico-te que não quero retornar, perder a tua luz. Entendo-te. Dispo-me, para ti. Sinto que me entendes. Completei-me contigo e agora és pedaço do meu ser, fazes-me falta.
Esqueço-me de ti, porque entraste em mim. E, estando comigo, não podes ser alcançada pelo manto culpado do meu esquecimento.
(
sempre comigo a lembrança, esqueci-me de ti, entraste em mim, pedaço do meu ser que faltava vestir.)
ano novo
Neste ano que começa, quero que continues. Eu perseverarei.
Neste amor que continua, quero que comeces. Eu prosseguirei.
Nesta vida que escolhemos, quero-te.
Eu quero-te.