divagações sobre Física
Nunca se nota tanto uma presença como no momento em que se transforma em ausência. Julgo que é afirmado, na Física, que dois corpos não poderão ocupar simultaneamente o mesmo espaço. Eu, que não sou muito versado em Física, tiro daqui o corolário que quando um corpo desocupa um espaço, logo outro o vem ocupar.Isto, contudo, não me é nunca reafirmado pela minha experiência de vida: muitas vezes sofri ausências que não foram colmatadas por novas presenças. A não ser que se considere a solidão um corpo. Ou a dor. E, bem vistas as coisas, frequentemente tornavam-se presenças incontornáveis...
(Dor que, tantas vezes, se metamorfoseia em raiva. Ou em desespero).
Foi por estes momentos de solidão, de dor, de raiva e de desespero que aprendi a valorizar a presença, não deles, mas antes da alegria, da felicidade, do prazer e da serenidade. Hoje, consigo identificar estes estados de espírito precisa e imediatamente. Consigo desfrutá-los. Consigo discernir quais as suas fontes.
Não tenho dúvidas: sei o que me espera quando - e se - eles se me ausentarem; por isso, mimo-os; rego-os delicadamente; acaricio-os; acolho-os no meu colo com desvelo. E vivo estes momentos em toda a plenitude sem os empurrar do seu espaço; sem convocar fantasmas ou aparições (in)desejadas; sem antecipar problemas; sem medo.
O ser humano habitua-se a tudo. Também à solidão; à dor; à raiva; ao desespero. Mas tenho bem presente na minha memória a última vez que o seu espaço foi ocupado por um novo corpo. E nunca se me assinalou tanto uma ausência como no momento em que se transformou em presença...

1 Comentários:
Surpreendeste-me (uma vez mais :)!!) com esta incursão pelos meadros da Física...
Ao ler a parte inicial do teu texto lembrei-me daquela analogia com a energia eléctrica: só sentimos a falta que faz nas nossas casas, quando somos privados dos seus serviços... Talvez o hábito da presença conduza à desvalorização, talvez seja um dado adquirido. De qualquer modo, esta tua análise foi mais além desta simples perspectiva...
Gostava de poder afirmar que também já tenho essa serenidade mas, muitas vezes, ainda “convoco fantasmas”.
Retribuindo o encómio: brilhante; a conclusão, em particular, está fantástica.
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