entraste em mim
Por vezes lembro que me esqueço de ti, Falésia. E, de imediato, atribuo este meu esquecimento ao facto de vivermos numa espécie de simbiose. Todavia, só ontem tomei consciência desta verdadeira comunhão, quando rodopiava, compenetradamente distraída, sobre oportunidades passadas. Não te vislumbrei em nenhum dos mais pensativos recantos; na verdade, era impossível descobrir-te enquanto não me descobrisse também.Como podia eu contemplar-te? Se estás dentro de mim e eu vivo em ti? Fundi-te na minha existência, numa liquefacção que apagou o marco do tempo: desenho-te como se estivesses estado sempre comigo, sem conseguir destrinçar com exactidão o lapso em que foste apenas esboço ténue.
Não obstante, admito que já fui precavida, distante, impenetrável; gastei o escudo azado da tua sombra, ensaiando-o como barreira de protecção.
Hoje, implicitamente, não me permito esta contenção, autorizo o nosso encontro: tu franqueaste a minha permanência; eu deixei-me comprometer. Não pondero (nem desejo) inverter a marcha, reunir fragmentos de passado e voltar. Despojo-me de medos, de vertigens, de angústias, de consequências antecipadas, aventurando a minha pele ao frio que possas segredar-me, e comunico-te que não quero retornar, perder a tua luz. Entendo-te. Dispo-me, para ti. Sinto que me entendes. Completei-me contigo e agora és pedaço do meu ser, fazes-me falta.
Esqueço-me de ti, porque entraste em mim. E, estando comigo, não podes ser alcançada pelo manto culpado do meu esquecimento.
(sempre comigo a lembrança, esqueci-me de ti, entraste em mim, pedaço do meu ser que faltava vestir.)

1 Comentários:
Bem aventurada a falésia que te complementa o corpo, quiçá a alma. Falésia que esqueces por a trazeres sempre na lembrança, e falésia que despes mesmo quando é traje que te complementa o ser. Falésia de que não se sente a presença, por vezes, por nunca se ter ausentado. Falésia que só não é, por vezes, porque já é tudo.
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