sexta-feira, janeiro 26, 2007

nós

Ouvi dizer (disseram-me?) que os nossos nós mostram a beleza que os entrelaça somente quando ficam cruelmente desatados. Nem sempre possuímos o sol, os festejos vivem de inflexíveis datas cravejadas no calendário, duas mãos apertadas empalidecem no gelo, as flores não partilham o seu perfume todos os dias, as montanhas não se erguem para que projectemos, do seu cume, o idílio da vida, porque a sua presença enfatiza ausências e desnuda invejas, como se o desejo de tocar os céus fosse pretensão altiva. Um dia, os rios estagnarão sedentos, a música desafinará os silêncios oportunos, qualquer manjar não terá apetite que o devore, as almas aposentar-se-ão e os sentimentos desfalecerão como círios gastos e descrentes. Ouvi dizer que fotografias de faces fugazes e felizes traduzem necessariamente negativos negros e nefastos. O encantamento não passa de um capricho da nossa imaginação com reduzidíssimo prazo de validade.

Não suporto ouvir dizer (dizerem-me?)... Adormeço os ouvidos, não quero escutar, solta-se a palavra. Ouvir-me-ão dizer (direi?)... Não se aniquilam devaneios assim tão abruptamente. Refugio-me em casa, emolduro e arquivo felicidade, preparo um novo e impaciente álbum, confio em faces felizes, raspo os desencantamentos que arderam na pele, mas reacendo esperança. Preparo uma lauta refeição por simples gula. Chamam-me tonta....

Erguem-se montanhas quando acreditamos em flores de indeléveis aromas: em cada elevação, uma corda. Forca ou escada. Os fios torcidos oferecem-nos degraus, insinuam fragilidades, expõem o precipício, estendem a mão. Reforçam-se os laços quando eles ousam esmorecer, firma-se o encantamento.Creio que um dia morrerei cantando, ainda que acompanhada por inaudíveis violinos de cordas fatigadas, num leito de águas tranquilas, lacrando nas mãos a secreta beleza das amarras. Atando nós (direi seguramente).

1 Comentários:

At 26/1/07 4:15 p.m., Blogger JLM disse...

Ai, meu deus!! Não é "atando nós", é "atando-nos"! :)
Estou a brincar, claro. Gostei muito, brilhante.
Agora que o Alexandre morreu, julgo que poderemos aventurar-nos em nós... górdios. Parece-te bem?

 

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