parabéns
Como uma árvore antiga cujos ramos se entrelaçam firmemente noutros mais viçosos e que deles sugam seiva rejuvenescedora em troca de robustez serena, assim eu me agarro firmemente a ti, esperando que não notes que a robustez é ténue e que a serenidade só chegou contigo.
Parabéns.
o meu mar
Nasci há muitas primaveras, sob uma rocha no alto de um monte. A princípio, era nada. Na paisagem que dominava das alturas, via tudo, queria tudo. Encetei caminho.
Comecei com optimismo. O declive ajudava. Foi-me fácil abrir caminho, serpenteando entre fragas e silvas, contornando escarpas e grandes árvores. Enquanto descia o monte, ia ganhando confiança que é como quem diz, velocidade. Embriaguei-me de liberdade.
Descido o monte, fui perdendo embalo. A paisagem, ao perto, não me parecia tão luxuriante e já não conseguia avistar grandes distâncias. Tinha mesmo de me concentrar em não ir de encontro aos obstáculos que povoavam o meu trilho. Continuei sereno, contudo. Sabia que o rumo era em frente. Um qualquer encantamento fazia-me continuar a persistir por entre escolhos e perigos até ao horizonte, algures na paisagem longínqua, onde chamavam por mim.
Nervoso, a princípio, titubeante até, fui assim mesmo cavando o meu leito onde espraiei a minha vontade, a minha força, a minha determinação. Muitas vezes tive de levar na enxurrada do meu arrojo pequenos-grandes estorvos e barreiras, para logo a seguir ver a minha resolução amestrada por margens escarpadas que me comprimiam.
Com o tempo, fui ganhando serenidade e confiança. O leito por mim esculpido era já largo, a minha força era apenas capricho. As paisagens eram belas e suaves, e as margens cediam-me espaço de que eu não precisava. Passava dias tranquilos, nadando com os peixes, correndo com o vento, deslizando sob as pontes. Mas...
Mas não fora ainda por isto que eu havia abandonado o monte sobre a paisagem.
Só quando cheguei aqui tudo fez sentido: o caminho era até ti.Tu és o mar que eu alimento e que me acolhe; que eu acolho e por quem sou alimentado.Aqui, completo-me, realizo-me: tu chamavas por mim e eu vim até ti, encantado...
regresso
Sabes... ontem tive medo... E, por isso, empreendi o meu regresso. Necessitava voltar a pisar a firmeza do chão para prosseguir caminho, desejava reciclar e, de seguida, ampliar esta certeza que tu tão brilhantemente me ensinaste a transpirar. Senti medo...
Alimentei-me e parti, saciada, ao teu encontro. No meu
passo inseguro...